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As Cismas Do Destino

 As Cismas do Destino

“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.”

Trecho de As Cismas do Destino, de Augusto dos Anjos.

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Via Láctea

 Via Láctea

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Olavo Bilac

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A Máquina Do Mundo

 “A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.”

Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade.

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Professor de Fortaleza entrega cartas de estudantes escritas há 20 anos – 15/12/2021 – UOL TAB

Antero Macedo, 65, passou os últimos dias organizando caixas etiquetadas com “Máquina do Tempo”. Sentado, estava à procura da carta da arquiteta Fabiana Castro, 29, entre pastas coloridas que tomavam conta da entrada da sala da diretoria do Colégio Mon
— Read on tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/12/15/professor-de-fortaleza-entrega-cartas-escritas-por-estudantes-ha-20-anos.htm

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Os Poemas

 “Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…”

Mário Quintana

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Allenby Road

 “ALLENBY ROAD

Ao entardecer, quando as ruas paralisadas perdem

as esperanças de ouvir soar uma ambulância, decidindo-se afinal

por chineses que passeiam a esmo, enquanto os olmos imitam o mapa

de um país vestido com roupa khaki, que embala seus inimigos,

a vida vai pouco a pouco ficando míope, remendada,

aquilina, geométrica, sem brilho

e sem detalhes – cornijas, maçanetas de porta, Cristos –

que realcem as silhuetas: chaminés, telhados, um crucifixo.

Teu gesto de fechar as persianas desencadeia a teoria

do dominó, pois não importa o tamanho do nó

que se desfaça em tua garganta, as futuras bolas de neve,

à luz da lâmpada, sempre formarão o perfil de um inevitável “não”.

Não é porque, ultimamente, os preços andem salgados,

mas ninguém ousa pegar essa bolsinha de tijolos

cheia de trocados, que mal dá para pagar uma boa noite de sono.”

(1981)

– Joseph Brodsky/Iósif Bródski (Ио́сиф Бро́дский), em “Poesia soviética”. [seleção, tradução e notas Lauro Machado Coelho]. São Paulo: Algol, 2007.

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João Silvério Trevisan: “O masculino está em construção o tempo todo”

Pessoas, empresas e organizações com iniciativas transformadoras em Educação, Saúde, Meio Ambiente, Trabalho, Diversidade, Vida Urbana e Gestão Pública.
— Read on www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/joao-silverio-trevisan-o-masculino-esta-em-construcao-o-tempo-todo/

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Terra

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Odisseu A Telêmaco

 “ODISSEU A TELÊMACO

Caro Telêmaco,

                            encerrou-se a Guerra

de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,

sem dúvida: só gregos deixariam

tantos defuntos longe de seu lar.

Mesmo assim, o caminho para casa

mostrou-se demasiado longo, como

se Posseidon, enquanto ali perdíamos

nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.

Não sei nem onde estou nem o que tenho

diante de mim, que suja ilhota é esta,

que moitas, casas, porcos a grunhir,

jardins abandonados, que rainha,

capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,

as ilhas todas se parecem quando

já se viaja há tanto tempo, o cérebro

confunde-se contando as ondas, o olho

chora entulhado de horizonte e a carne

das águas nos entope enfim o ouvido.

Não lembro como terminou a guerra

e quantos anos tens, tampouco lembro.

Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,

só eles sabem se nos reveremos.

Não és mais o garoto em frente a quem

contive touros bravos. Viveríamos

juntos os dois, não fosse Palamedes,

que estava, talvez, certo, pois, sem mim,

podes, liberto das paixões de Édipo,

ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.”

(1972)

– Joseph Brodsky (Ио́сиф Бро́дский), no livro “Quase uma elegia”. [tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher; Introdução e textos complementares de Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995.

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Velha Infância

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